26 de out de 2009

Roma quer atrair os anglicanos tradicionais


Mais uma medida desesperada da igreja romana.O papa Bento 16 decidiu criar uma nova estrutura para receber, possivelmente, centenas de milhares de tradicionalistas que renegam a visão progressista da Igreja Anglicana em relação à homossexualidade e ao papel das mulheres na igreja. Pela primeira vez desde a reforma protestante e a ruptura entre a igreja inglesa e Roma no século 16, o papa estabeleceu as bases para que comunidades inteiras de anglicanos possam ser admitidas na Igreja Católica sem que tenham de renunciar a sua liturgia.
Isso significa que Roma aceitará em seu seio sacerdotes casados (como já faz com os católicos do rito oriental), mas os bispos anglicanos que aderirem à nova congregação não serão reconhecidos como bispos e os sacerdotes que entrarem nela solteiros não poderão se casar posteriormente. Até agora, os anglicanos que negavam as posições progressistas de sua igreja não tinham alternativa senão aceitá-las, combatê-las por dentro ou se converter totalmente ao catolicismo.A primeira consequência que se pode esperar desse anúncio histórico é uma forte diminuição do número de fiéis anglicanos, que hoje somam cerca de 77 milhões em todo o mundo, especialmente de sacerdotes. A segunda é que se abre o caminho para que a Igreja Anglicana aprove a ordenação de mulheres bispos sem nenhum tipo de obstáculo, transformando-se assim em pólo de atração dos cristãos que creem que sua fé não é incompatível com a igualdade entre homens e mulheres e que renegam a obsessiva agressividade dos tradicionalistas em relação aos homossexuais. Isto é, a Igreja Anglicana pode perder peso, mas pode ganhar em coerência interna e afastar o fantasma do cisma.
Outra consequência pode ser um maior equilíbrio entre anglicanos e católicos no Reino Unido, onde se estima que existam cerca de 25 milhões de anglicanos e 5 milhões de católicos. A nova estrutura criada por Roma abre as portas particularmente aos chamados anglo-católicos, uma corrente do anglicanismo que se sente mais próxima da liturgia católica que da protestante e que nunca digeriu totalmente a ordenação de mulheres sacerdotes, para não falar no desenvolvimento de mulheres bispos.
A nova estrutura foi apresentada nesta terça-feira em Roma pelo cardeal americano William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma entrevista coletiva na qual explicou que a iniciativa "responde a diversos pedidos por parte de clérigos e fiéis anglicanos procedentes de diversas partes do mundo que querem entrar em plena comunhão com Roma".
Para refletir sua abertura aos tradicionalistas anglicanos, o papa Bento 16 decidiu elaborar uma constituição apostólica, decreto de categoria máxima e fato excepcional na igreja, que prevê a criação de prelaturas pessoais como a que ostenta atualmente o Opus Dei. Desse modo, as comunidades anglicanas que decidirem entrar na Igreja Católica dependerão de um bispo particular, e não do que lhes corresponderia territorialmente em função da diocese em que residem.
O cardeal Levada defendeu que a constituição apostólica representa "uma resposta razoável e necessária a um fenômeno global e oferece um único modelo canônico para a igreja universal adaptável a diversas situações locais". Mas descartou que será estendida a comunidades como a de São Pio 10º, que reúne seguidores do integralismo católico representado por Marcel Lefebvre. "Não há nenhuma relação entre a abertura para os anglicanos e o próximo início do colóquio com os lefebvrianos", previsto para 26 de outubro, disse.
Paralelamente ao comparecimento de Levada em Roma, ocorreu uma entrevista coletiva conjunta em Londres do arcebispo anglicano de Canterbury, Rowan Williams, e o primaz católico da Inglaterra e Gales, o arcebispo de Westminster, Vincent Nichols. Alguns viram um símbolo dos novos tempos no fato de que o encontro tenha se realizado em território de Nichols.
Os dois líderes eclesiásticos emitiram uma nota conjunta em que comemoraram que a iniciativa "põe fim a um período de incerteza para os grupos que alimentaram esperanças de novas vias para abraçar a unidade com a Igreja Católica". Mas alguns analistas salientaram nesta terça-feira que a nova estrutura significa de fato o fim da aproximação entre as Igrejas Católica e Anglicana.
Rowan Williams, um progressista que ganhou críticas dos dois setores do anglicanismo por suas tentativas de contentar a alguns sem agravar a outros, esforçou-se para reduzir a importância do anúncio do Vaticano, que na sua opinião "não tem um impacto negativo nas relações da comunhão como um todo com a Igreja Católica".
"Não é um ato de agressão, não é uma declaração de desconfiança. É 'business as usual' [uma situação normal]", afirmou Williams. Mas o arcebispo de Canterbury não pôde ocultar seu desagrado pelo fato de que o Vaticano não só não o consultou sobre suas intenções como se limitou a lhe comunicar seus planos há apenas "algumas semanas", admitiu Williams, com o rosto vermelho de contrariedade.A verdade é que após a inumeras denuncias de abusos sexuais praticados por padres, a igreja de roma se vê em pavor ao perder cada vez mais centenas de seguidores para o protestantismo,não havendo saida,abre mão de lutas históricas de defesa de suas tradições e se entregando a necessidade capitalista de agregar membros, devido aos dizimos e ofertas, que outrora repudiava, no fundo o que esta em jogo é a sua sobrevivencia econômica, já que vive de generosas doações.

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